ELA É MARA

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Ao relatar sua vida em livro, Mara Gabrilli fala do acidente que a deixou paralisada do pescoço para baixo, de conquistas e da retomada da vida sexual, possível até dentro do hospital

O risco de errar ao fazer qualquer projeção sobre a personalidade de Mara Gabrilli, 46, baseando-se só em seu aspecto físico de pessoa com tetraplegia é imenso.

Mara é inquieta, liberta, sensual, provocadora. Nada tem de sofredora, de dependente ou de boazinha, como pode transparecer ao receber comida na boca de uma de suas fiéis ajudantes, relata o colunista Jairo Marques.

Talvez, por essa razão, a biografia que a deputada federal pelo PSDB-SP lança amanhã, "Depois daquele Dia", pela editora Saraiva, cause surpresas em seus fãs, críticos e eleitores.

Na obra, escrita pela jornalista Milly Lacombe, Mara sofre um bocado e faz chorar com os detalhes de seu gravíssimo acidente de carro, mas também diverte, fica nua, transa, queima baseados e inspira multidões.

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"Morria de vergonha de ler o livro terminado. É minha vida, em detalhes, que está ali! Fico imaginando algum deputado velhinho lendo e olhando desconfiado para mim lá na Câmara", diz, soltando uma gargalhada.

A tragédia que mudou a sua vida ocorreu em 1994. Ela viajava com o então namorado, Paulo Fishberg. Os dois, e mais um amigo, voltavam de um fim de semana no litoral norte de São Paulo, lugar de paixão de Mara. O casal estava em crise e, no carro, ensaiava uma discussão. Ele conduzia em alta velocidade. Ela lembra que implorava mentalmente para que parasse de correr. Em vão.

O carro despencou de uma altura de 15 m. Mara se recorda de que, presa nas ferragens, foi socorrida pelo amigo. Ele tirava cacos de vidro de sua boca, que sangrava. Ela detalha também a dor. Era como se seu pescoço estivesse sendo esmagado.

Todos se recuperaram bem. Só Mara ficou com sequelas graves. Tem hoje apenas movimentos do pescoço para cima. Precisa de ajuda 24 horas por dia. Conta com um motorista e três assistentes pessoais.

De família rica do ABC Paulista, dona de empresa de ônibus, concessionária de carros e imóveis, Mara teve e tem o melhor em reabilitação e cuidados, que incluiu uma temporada de tratamento nos EUA. Isso a ajudou a desenvolver habilidades sensoriais "inimagináveis".

"Tive transformações óbvias no meu corpo, mas estou sempre o reencontrando e acho que, talvez, ele não tenha se modificado tanto como achei que seria após o acidente. Vejo funções e possibilidades muito novas para ele dentro da minha cabeça."

E as "possibilidades" foram sendo abertas desde a UTI, no hospital Albert Einstein, onde Mara ficou por 50 dias, entre tubos de oxigênio e testes atrevidos em sua nova sexualidade.

De lá, ela telefonou para o namorado pedindo que fosse visitá-la. Tinha muito desejo. Pediu que ele a tocasse.

Depois do tratamento nos EUA, voltou a morar com os pais. Alugou um flat para manter a privacidade em alguns momentos. Às vezes ela e Paulo se encontravam lá, mas o namoro já tinha desandado. Conta que, tempos depois, começou a namorar o nutricionista Alfredo Galebe.

Três meses mais tarde, foram pela primeira vez para um motel. O prédio tinha escadas. Ele carregou Mara nas costas. Já no quarto, ajudou a namorada a tirar toda a roupa. Tarefa nada fácil, já que ela usa cintas para dar sustentação à musculatura.

Galebe a ajudava a se movimentar e a abraçá-lo. A partir daí, na definição dela, o romance ficou tórrido. Durou sete anos.

"Às vezes, a própria pessoa com deficiência não sabe que pode ser feliz em sua sexualidade. Para mim, sexo sempre foi gostoso, saudável. Quando percebi que essa parte ia continuar após o acidente, fiquei muito aliviada." Em setembro de 2000, ela posou nua para a revista "Trip".

Depois do acidente, Mara continuou a estudar. Formou-se em publicidade e em psicologia. Abriu uma ONG para ajudar pessoas com deficiência. As portas para a política se abriram. Seu primeiro cargo foi o de secretária municipal da Pessoa com Deficiência, na gestão de José Serra (2005-2006).

Há alguns anos, o pai, Luiz Alberto Gabrilli Filho, sofreu um aneurisma e quatro AVCs. Ficaram, então, dois cadeirantes em casa. Hoje, ela mora sozinha em um apartamento nos Jardins.

A ajudante Rosa ajeita a mão de Mara em uma taça de vinho diversas vezes ao longo da entrevista. Embora ela não consiga se mexer, a acompanhante simula os movimentos. Ela usa, por exemplo, uma bicicleta ergométrica, onde seu corpo é encaixado para ser exercitado.

"Mara não poderia viver como uma pessoa passiva. Ela não era passiva em nada e, ainda que não conseguisse mais se mover do pescoço para baixo, jamais conseguiria ser uma mulher sem atitude", narra trecho do livro.

Sim, a cabeça da "ongueira", ex-secretária municipal, ex-vereadora e a mulher mais votada para um cargo do Legislativo federal também se transformou com o "chacoalhão" que a vida deu na garota atrevida dos anos 1980.

"Tomei uma porrada imensa da vida e tive de pensar tudo diferente, tive que construir uma nova Mara", diz ela. "Sou humana. Tem horas que enlouqueço com bobagens corriqueiras. Mas, na maioria das vezes, faço uma reflexão e dou um grande sorriso."

"Depois daquele Dia" tem narrativa não linear. Ora o leitor está à mesa de jantar dos Gabrilli com Mara e a mãe, Claudia, tendo algum tipo de conflito, ora mergulha na intimidade da biografada.

"Minha mãe sempre foi muito rígida comigo, mas o temperamento dela foi fundamental para que eu tivesse força de seguir em frente e encarasse meus desafios."

Certo dia, quando ainda militava no terceiro setor, cismou: queria se encontrar com o então presidente Lula para falar sobre esquemas de corrupção em empresas de ônibus na região do ABC. "Até parece", desafiou a mãe. Mara saiu com sua cadeira motorizada e foi sozinha até a porta do prédio do petista. Ameaçou fazer um escândalo –e ele a recebeu.

O livro já tem contrato para se tornar filme e Mara faz planos ambiciosos de, um dia, comandar o Palácio Matarazzo, sede da Prefeitura de São Paulo, a bordo de sua cadeira de rodas. Mas sobre isso ela não dá declarações, nem mesmo ao longo das 318 páginas de sua biografia.

"Às vezes, a própria pessoa com deficiência não sabe que pode ser feliz em sua sexualidade. Para mim, sexo sempre foi gostoso, saudável. Quando percebi que essa parte ia continuar após o acidente, fiquei muito aliviada"

Fonte: Folha de São Paulo – Mônica Bergamo

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